1 de nov de 2010

À Ana C. (27 anos da morte de minha querida companheira de angustias)

Um pequeno desespero

À medida que me procuro me perco cada vez mais nesse labirinto criado pela ira dos deuses e pelos meus olhos de fúria me busco freneticamente em alguma esquina esquecida da memória ou nos escombros de uma lembrança enfraquecida pelo tempo meus personagens se esvaem como pequenos fios de minhas mãos e o verdadeiro eu está cada vez mais distante confuso irrequieto em algum lugar escuro e sem vida procuro esqueço feneço construo e desconstruo e adormeço em meio à tempestade que me atinge inerte e sem culpa a chuva batendo em meu rosto com a violência de uma realidade que não quero conhecer pulo do alto dos meus sonhos e atinjo o chão com a força que a liberdade me impulsiona fera destreinada do cotidiano e pronta para sangrar cada pedaço poético do meu corpo há uma folha branca e limpa à minha espera há uma vida branca e limpa à minha espera e há um destino branco e limpo à minha espera que espera sem esperar nada do mundo a literatura é um grito mudo que ninguém ouve ninguém ouve ninguém ouve ninguém ouve nenhum recurso de linguagem poderá me salvar apenas a poesia sedenta de sangue lagrimas e desespero poderá amenizar o que sinto atravesso a rua apressada há um sinal que permite uma decisão arriscada como uma curva inesperada quem me segue nunca vi ninguém atrás de mim com tanta sede de perguntas ou alguém à minha frente com tamanha angustia de viver ando sem parar sem olhar sem sentir sem respirar e chego finalmente ao limite de mim mesma meu refúgio que não funciona meu esconderijo que está à mostra meu dilema que está exposto como uma fratura recém sofrida meu coração aos pulos meu peito em pranto de perder um só segundo da espera que não espera nada do mundo a não ser um banco onde possa se sentar sinto muito senhor não sou deste planeta deste lugar deste hemisfério sou pedra bruta inlapidável erva venenosa que brota descontrolada do chão eu navego em mares desconhecidos e sem porto certo para atracar os meus sonhos que são tão vagos como eu que vago sozinha pela imensidão dos meus caminhos não vejo mais nada além dos meus olhos de fúria redondos e cheios de mágoas e lágrimas grossas que se precipitam pelo meu rosto cansado de tantas decepções e desencantos há fúria em minhas mãos há desejo em meu corpo há vontade em meus braços não quero mais ouvir não quero mais sentir não quero mais prever meus passos e erros e desafetos não sou eu quem está ali de roupa clara e cabelo preso óculos malditos que observam o que não existe e que persiste em me perturbar aquela outra não conheço mas a sinto como um outro corpo em mim aquelas outras varias múltiplas infinitas criaturas que me acordam no meio do sonho para me alertarem que estou certa demais correta abrupta inquebrantável inatingível inalcançável para mim mesma bem escovada bem arrumada bem maquiada bem vestida bem bem bem boa boa boa boba boba boba inútil perceber esses erros de programação que não são meus estou chegando perto agora só mais um pouco espere vou conseguir aguarde um momento por favor a chamada do seu destino será transferida em alguns segundos para um outro lado que você desconhece o seu lado obscuro fantasioso e desnecessário na banalidade do dia a dia mas precioso nos dias de chuva para se fazer poesia mais um momento por favor estou chegando está quase ... Pronto. Janela alta. Flutuando.

adormeço
amanheço
e me desfaço
deste formato
que me define
extra angustia
modelo raro
no estoque .

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