1 de nov de 2010

“O pior é que ela poderia riscar tudo o que pen¬sara. Seus pensamentos eram, depois de erguidos, es¬tátuas no jardim e ela passava pelo jardim olhando e seguindo o seu caminho.” (Clarice Lispector in Perto do Coração Selvagem)


De onde vem este mármore que me sustenta? Serão meus pensamentos edificados a me manterem viva? Construo e descontruo com a rapidez de uma avenida veloz ; há em mim uma inconstância tamanha que ao me perseguir me perco de mim mesma , sou volátil, intangível, presa incerta da realidade, incompreensão. Navego em mares difusos à procura de um porto para atracar meus anseios, mas talvez ele só exista dentro de mim, velho e enferrujado, esperando por um olhar esperançoso. Quando penso, ignoro o que sinto. Quando sinto, ignoro quem sou. Complexidade incômoda, simplicidade utópica. Do verdadeiro eu, há contradições infinitas que cabem na palma da mão e que se perdem em um sopro. Mãos em concha para o invisível. De onde vem esse desejo estúpido de continuar? Do meu rosto angelical e da minha mente sem escrúpulos?
Há uma parede fria e branca à minha frente, tenho pincéis e tintas coloridas e um desassossego no peito. Vontade de gritar o que ninguém pode ouvir, desejo de fazer o que ninguém nunca pensou. Vaidades à parte, sou insegura feito uma rocha corroída pela erosão. Feito o chão que se abre nas tempestades e satisfaz a sua fome. Na negação de mim mesma, peso e pondero, e choro sem medo de errar que não sou exatamente o que pensava ser. Outra vez o dilema histórico, o punhal na carne, a poesia latente, a fé desnecessária.

Mais uma vez a rua. Andando vou levando o meu pranto silencioso até o limite de mim mesma. Até encontrar um caminho (certo ou errado, não importa) que possa curar esta dor que não é minha.

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