29 de nov de 2009

Absinto

Olhou-o com ternura. Braços longos, olhos ávidos, boca pequena. Não era bonito, e seus longos cabelos negros disfarçavam-lhe marcas de um tempo que era só seu. A noite fria e a neblina caindo fina, ensurdecedora. Ambos ascendem um cigarro para disfarçar a ansiedade. Passos miúdos tentavam reter o tempo que escorregava pelos dedos frios que agora se entrelaçavam tímidos. Havia muito o que dizer. Sob as copas frondosas das árvores de inverno um vento gélido soprava e bocas ansiosas por uma confissão insinuavam aproximar-se e conceber um leve beijo. A cada passo inseguro pelo íngreme caminho tomado por pequenas pedras que dificultavam até mesmo o pensamento, ela jogou-se nos seus braços e pequenas luzes de néon configuraram-se à sua volta. Tudo estava perdido. Na entrega de ambos, residia o medo. O tormentoso medo de enganarem-se tamanha intensidade de ações e palavras. A respiração arfando no peito que agora descobria uma nova forma de viver, um novo mundo fragmentado por imagens e emoções desconhecidas. Ele, incapaz de perceber alguma coisa senão a própria ânsia de vida que lhe consumia e que agora podia desaguar em porto seguro. Ela, completamente alheia ao tempo e a poeira que agora levantava forte depois da neblina. E nessa entrega desajustada algo foi se perdendo lentamente no abismo das emoções e de repente, acordaram do profundo sono passional que lhes embriagava, e a respiração tornou-se pesada. Talvez o mundo não parasse mais, o tempo tampouco e a ausência que sentiam um pelo outro diminuía a cada dia. Mas, quando o reencontro se desfazia em promessas e saudades tudo retornava à sua origem desagregadora. Ela, conflituosa em controlar cada palavra de insegurança que pudesse proferir, Ele na dificuldade de traduzir aquele imenso anseio que supunha não acontecer. E, assim, seguiram embalados pela tal embriaguez amorosa que nem percebiam a passagem dos dias e as mudanças da lua; as novas cores do arco-íris ou a proximidade de um fim que talvez não existisse. Sob a duvidosa canção do amor ensaiaram inúmeras vezes uma conclusão indefinida pela imensa vontade de continuar e assim permaneceram, apoiados em uma tênue linha prestes a se partir tamanha incerteza. O caos e mais nada. E tudo permaneceu quieto e profundo, como as gotas de absinto que restaram no fundo das envelhecidas taças espalhadas pela mesa onde tudo principiara.

3 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Braços longos... Sabemos para o que servem.
    Eu também já os tive.

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