15 de fev de 2010

Elvis que nada deixou

Com certa cerimônia entrou no carro e sentou de maneira curva, braços cruzados apertando o corpo magro, impedindo qualquer possibilidade de iniciar um diálogo em meio àquela chuva repentina. Já não havia mais o que dizer. Prometera a si mesmo que uma simples carona numa noite de iminente tempestade não alteraria os planos de seguirem em direções opostas. Olharam-se, e os dois ali a poucos centímetros de uma reaproximação que ambos inconscientemente queriam. Ao fundo tocava uma canção de Presley que remexia em muitas coisas e os vidros embaçados só colaboravam para confundir ainda mais o pensamento. Decidido a enfrentar aquele percurso sem nenhuma lembrança, não se conteve quando ao bater o joelho no porta-luvas do carro, uma infinidade de fotos a deslizar sob seu colo, o fez inutilmente tentar saltar do veículo o mais rápido possível. Mas a paralisia que o acometeu foi tamanha que as fotos permaneceram ali, como peças de um quebra-cabeça coladas ao seu corpo. Talvez uma lágrima tenha principiado nos olhos já cansados que carregavam os óculos antigos; nada que um olhar para a chuva intermitente lá fora não pudesse disfarçar. Enquanto o sinal não abria, ela o olhou tentando se certificar se até então a situação estava sob controle e se seria necessária uma ajuda para recolher as fotos recém-caídas daquela caixinha de surpresas acoplada ao carro. A chuva batendo com violência nos vidros e ele ali solitário catando os fragmentos que restaram daquela antiga docilidade infantil e da figura paterna que lhe alisava os cabelos nos dias de pesadelo; elo que se rompeu não se sabe onde e quando, talvez num bater de portas, um retrato empoeirado e Presley a cantar inocente numa noite qualquer. Agora um sinal verde talvez para um questionamento, uma tentativa de recapitular as cenas anteriores, impedir conclusões precipitadas. Continuaram em um silencio sufocante seguindo os poucos carros que habitavam as ruas já desertas e a chuva a inundar-lhes de dúvidas. O silencio perturbador principiou a se confundir com um choro baixinho, desnecessário, pedido de quem deseja expressar-se e não consegue. Isso o lembrou dos tempos em que a embalava nos braços, o corpinho envolto nas roupas felpudas e apenas nesse instante revelou-se a presença de alguém emaranhado em cobertores e enfeites coloridos. Agora ele ali contemplando no banco traseiro aquela criança rechonchuda e rosada, olhos curiosos para uma parte que também era sua. Não houve questionamentos a respeito daquela repentina descoberta no banco traseiro do carro nem o mosaico de fotos que despencou sob seu corpo encolhido, apenas um olhar clandestino para aquelas mãos jovens e tensas que guiavam o carro sem pressa em meio à chuva forte. Nenhuma curva a mais para principiar um diálogo que pudesse recolocar as coisas no lugar, um movimento que denunciasse a vontade de reascender lembranças ou uma música para disfarçar o incômodo de estarem lado a lado. Nada. Absolutamente nada. Nem Presley imaginaria tanto desgosto naqueles corações.
A chuva acalmara, mas o coração aos pulos e aquela inquietude apertando o peito e sufocando e rindo e Presley tocando lá no fundo da memória e uma dor love me tender for my darling I love you ele já balbuciava para aquelas mãozinhas que tentavam alcançar algum sonho em meio aquele mundo desconjuntado. E nenhuma respiração a mais saíra de sua boca que pudesse embaçar novamente os vidros do carro após a chuva e fazer pequenos desenhos para alegrar o netinho que continuava zombeteiro no seu mundo de estrelas.

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