27 de abr de 2010

The Bad Romance (ou o dia em que Raquel Reis perdeu o juízo, mas descolou um trampo)


Sentada pernas inquietas e pés nervosos que amassavam o quinto cigarro do dia esperava para ser chamada até a minúscula e escura sala à sua frente. Eram três horas da tarde e o sol a rachar o asfalto lá fora e a consumir o pouco ânimo que lhe restava. Sem almoço e com apenas água mineral sem gás no estômago tudo começava a girar à sua volta, de repente o ar ficou mais pesado e o opaco das luzes perfuravam os olhos avermelhados pelas noites insones.  Os pés (já cansados pelos apertados coturnos) que batiam frenéticos acompanhando The Strokes no mp4 silenciaram e os olhos mortos pelo cotidiano se fecharam. Tudo escureceu. Raquel dormira por alguns instantes antes de ouvir ao longe uma voz nada agradável a balbuciar lentamente:
_ A próxima!
Não fosse o torpor que lhe tomara os ossos do corpo moídos de cansaço Raquel teria respondido com um pequeno palavrão (para não causar estranhamento aos demais companheiros de espera) àquele lenta e  estridente invocação.  Onde estariam neste momento suas forças e seu canivete para acabar com aquela falta de sensibilidade com seu delírio solitário?
_ Sou eu (porra).
A imensa mulher à sua frente a encarou de forma a indicar explicitamente sua irritação com menininhas punks e que mascam irritamente chicletes para chamar a atenção.  Instalou-se naquele exato momento uma vontade irrefreável (por parte de Raquel) de efetuar um golpe sutil e certeiro (que aprendera depois de assistir 12 vezes ao filme Charlie’s Angels) no queixo pontiagudo da imensa mulher à sua frente. Seria lago cinematográfico se exibido em câmera lenta (assim como seu dia), pois todos compreenderiam o sofrimento da pobre menina que desde as 7 horas da manhã buscava pacientemente um humilde emprego para sustentar sua vida boêmia e lançar seu primeiro livro de poesias. Porém, nada aconteceu. Nem o palavrão, nem golpe, apenas Raquel levantando lentamente do banco desconfortável em que se encontrava e encaminhando-se para a minúscula e escura sala à sua frente. Ao entrar na sala Raquel estremeceu de tal maneira que provavelmente tudo sacudiu à sua volta e tudo porque um par de olhos verdes e músculos bem definidos lhe encarava zombeteiro com uma agulha cirúrgica na mão e um avental e máscara que não escondiam a beleza brasileira por trás daquele uniforme. De repente, tudo fazia sentido e a menina pensava na existência da redenção para aqueles que tentam viver de literatura e instantaneamente veio-lhe à mente um pequeno verso “ Te olhei/ e me vi tatuada/no teu corpo/sem escrúpulos.”. Agora tudo se justificava e amenizava sua pequena luta cotidiana para explodir o mundo. Aqueles olhos verdes, verdes da cor da esperança que Raquel teimava em não carregar, salvaram o seu dia.  Um silêncio se fez impenetrável e apenas a sobrancelha levantada e um meio sorriso de Raquel significavam muitas coisas, talvez incompreendidas por aquele amontoado de músculos à sua frente (mas quem precisa de literatura quando o desejo está no comando?) e além da máscara arrancada estupidamente daquele rosto divino, outras coisas começaram a cobrir o frio chão daquela sala pequena e escura e agora corpos em desatino iniciavam um idílio sem fim.  Meia hora se passara desde a entrada de Raquel e a imensa mulher que a chamara encontrava-se em total estado de impaciência pela demora da menina. Mas sabia que não deveria interromper a entrevista, afinal e contas já deveria ser a décima pessoa a tentar uma vaga naquela clínica de tatuagem do centro da cidade. De repente, a porta se abriu e os inúmeros olhos ainda em espera se voltaram para aquela moça que agora só carregava alguns resquícios de maquiagem no rosto e um sorriso safado no canto esquerdo da boca. A entrevista acabara e Raquel se sentia satisfeita por expor muito claramente sua experiência com tatuagens.
Agora, já em casa e com os pés mergulhados em uma bacia com água morna e lendo Hamlet para aliviar a tensão, Raquel esperava ansiosa pelo resultado da entrevista. O emprego ajudaria muito e sua vidinha talvez se transformasse e fosse além cotidiano de esperas. O telefone toca e com mãos trêmulas (não por nervosismo e sim para manter entre os dedos o cigarro que segurava) atende com uma voz neutra e séria:
_ Sim?
Uma voz gutural do outro lado da linha a faz estremecer mais vez:
_ Às oito?
_ Perfeito.
Descendo freneticamente as escadas do seu apartamento e com um modelito suspeito, Raquel entra no carro que a esperava no outro lado da rua. E a noite se esvai como um sôfrego instante para os enamorados que perdem a hora e não se preocupam com mais nada.  Agora Raquel tatua e é tatuada por mais uma intransigente paixão (isto explica a pimentinha tatuada em seu pescoço). 

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