1 de mai de 2010

O Processo de Criação (interessante depoimento de Clarice Cezar de Abreu sobre processo de criação)


Você não quer experimentar a vida? Por quê? Tem medo do que espera por você lá fora?  Olha, lá fora não há nada de assustador, a hipocrisia, o descompromisso e falta de respeito entre as pessoas é comum. Talvez um pouco de atenção em olhar para o lado amenize o problema. Mas você não deve temer, pois tudo tem o seu lado colorido e feliz. Como?  Se os poetas sofrem? Ah sim, os poetas sofrem e se dilaceram o tempo todo tentando salvar um mundo que só existe dentro deles. E esse mundo é capaz de salvá-los do resto do mundo. Uma realidade paralela, eu diria, onde nem todos têm permissão para entrar. Não se preocupe, o que não mata vira poesia e é aí que está o encanto. Os poetas são capazes de transformar a dor em escrita, só que muitas vezes este processo de “transmutação” é tão doloroso que encontramos autores padecendo de falta de sentido, melancolia existencial, tristeza degenerativa,ausência de si mesmo, falta do que ainda não tiveram, enfim, uma série de enfermidades muitas vezes arrasadoras. Diga-se de passagem, Virginia Woolf, Sylvia Plath, Ana Cristina Cezar...  Mas não se assuste a maioria dessas enfermidades são carregadas com bravura pelos poetas (os mais insanos) e é esse conflito intenso e destruidor que produz coisas belas. Muitas vezes quando os leitores apreciam algum texto não imaginam quanto estes autores “sangraram” para produzi-lo. Escrever dói e exige um estágio de loucura, percepção e sensibilidade inimagináveis.  Essas realidades paralelas têm profundidades diferentes, algumas são tão distantes que se tornam perigosas e aí se corre o risco dos poetas não voltarem, porque lá ficaram se protegendo da hostilidade do mundo e criando para deixar as coisas mais leves. Também é difícil “domar” a palavra ate que ela se encaixe do jeito que os poetas desejam, pois elas têm vida própria. Sim, vida própria e uma voracidade sacana em contrariar seu criador. Duro embate entre criador e criatura. E quanto aos períodos de inércia, então (ou seria ócio criativo)? Em que tudo perde o sentido e a palavra não surge de jeito nenhum, processo angustiante em que o poeta vai definhando por dentro e desaparecendo feito fumaça, para depois de muito tempo renascer! E com uma carga criativa impressionante, é como se o período de inércia servisse para recarregar as baterias. Há alguns autores que “vomitam” textos, e longe de ser um processo repugnante pelo contrário, há beleza em se ver as palavras jorrando fora do controle e se debatendo aflitas na folha branca ou na tela do computador. É extasiante. Como os poetas sabem que irão escrever naquele momento? Ora, o ar fica mais pesado, o vento bate no lado oposto, o sol brilha menos e tudo explode! É uma atmosfera difícil de descrever, uma embriaguez poética... Às vezes qualquer palavra ou frase ou um mínimo fragmento são capazes de criar uma história inteira, então cabe ao poeta perceber qual será o melhor momento para transformar encaixar estas peças desencontradas. A música junto ao hábito de leitura é essencial (em alguns casos) para a criação poética. Nada melhor que ler poesia para se escrever poesia, é dessa forma que se conhece o texto. Se é verdade que é necessário um isolamento para se escrever? Ora pense: se nos isolarmos do mundo, que é a nossa matéria prima, como poderemos transformá-lo em poesia? Há alguns autores que preferem o exílio para escrever, mas francamente... para quem se alimenta das angústias e tragédias humanas (principalmente aquelas dores que ficam nas entrelinhas)  para criar é difícil manter-se longe de tudo isso, mas é possível um distanciamento cauteloso para não sermos engolidos por esta realidade que não nos pertence (ou que não queremos pertencer). E alimentar-se dos conflitos humanos para criação não significa que só escrevamos nos momentos tristes. Há alegrias também , mas para essas alegrias se tornarem um suporte para escrita é preciso que elam sangrem, doam, rasguem a carne e provoquem um desejo diferente. Às vezes se está tão feliz que esta felicidade dói e aperta o peito e se transforma em melancolia. Mas confesso que a tristeza em suas diversas formas é melhor companheira para os momentos de criação.

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