2 de mar de 2013


Há um silêncio devastador no pequeno apartamento. Cômodos abarrotados de livros, filmes, discos, memórias, ressentimentos. O silêncio pesa como uma mão  atingindo a face desavisada; uma ruga a mais e tudo desmorona. O tempo também pesa. E muito. Corro até a janela na tentativa de visualizar alguma forma humana capaz me ouvir. Ouvir o meu silêncio ruidoso, caótico, incessante. Mas não há ninguém, é alta madrugada e o céu está dormindo; nem mesmo meus felinos, fiéis até no desassossego, me querem por perto.
         Há muito trabalho pela frente e é necessário me burocratizar novamente, fechar os olhos e engolir a seco tudo o que não desejo. Sobreviver tem sido um ato mecânico nos últimos dias: acordar, tomar banho, alimentar os bichanos, lavar a louça, trocar os móveis, trocar de vida. Desempenhar um papel que não me pertence, desarticulando qualquer reação. De fato, eu me perdoo. Me culpo. Me perdoo de novo e não compreendo o mapa que desenhei para mim com tanta perspicácia, há erros intermináveis nesta trajetória. Ouço Beatles e tudo me corrompe. Coração que não pulsa. 

2 comentários:

  1. Gostei muito desta crônica intimista. Muito boa a estrutura e a frase "O silêncio pesa como uma mão atingindo a face desavisada [...]", está realmente tocante.
    Agradei-me daqui. Volto assim que possível.
    Te convido a visitar os meus blogs: www.avessasingularidade.blogspot.com.br e www.br392.blogspot.com.br
    Abraços e sucesso.

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