31 de mar. de 2014

Novo blog

 Prezados (e queridos) leitores:

Mudamos de casa!

A partir de agora minha produção poética pode ser acompanhada em novo blog:  Há quem diga que não era aquela música.


Espiem lá! Abração.

26 de fev. de 2014

Sem título


teu silêncio
um esgar de músculos


frêmito do dia


rubro torpor sob os meus pés.

12 de fev. de 2014

Considerações inúteis sobre a vida ou Nota para Caderno Terapêutico #14



1- Piada sobre negros ou homossexuais comovem o mundo. Piadas sobre gordos provocam riso. Não entendo.

2- Janelas, escadas e caminhões são sempre necessários.

3. Há uma grande diferença entre ser anti-social e mal educado.

4. Pizza com coca - cola pode resolver o problema da paz mundial.

5. Café salva vidas.

6 - A probabilidade de um avião cair em cima da minha casa é de 5%. Infelizmente.

7. Pais "castradores" geram filhos inseguros. Kafka que o diga.

8- Ficar triste faz bem pra alma. 

9-  Sexo, jazz e Rivotril [só não tente a bebida].

10 - Encontrar sua versão masculina: raridade. Mas acontece [deve ser Deus].

11. Woody Allen é o meu terapeuta oficial.

12 - Acho digno enfiar a cabeça no forno. Sylvia foi corajosa. Mas antes escreveu Ariel e aí está toda a diferença.

13. Gostar de POESIA é para poucos.

14. Minha metralhadora é cheia de mágoas. E de balas de goma.

15. Importante desligar todos os fios das tomadas da casa. Vai que.

16. Importante é ser feliz. Mentira.

17. Parente puxa saco é foda.

18- Tesão intelectual é tudo na vida. Depois do cappuccino alpino.

19- Timidez, sarcasmo e auto ironia.

20-  Importante ver o lado trágico da vida. E dramatizar um pouquinho. 

21- A taxa de acidentes com vizinhos que não cuidam do próprio rabo é altíssima.

30 de jan. de 2014

Nota para Caderno Terapêutico #13

Chove a cântaros. Banho lunar na volta do supermercado. Gotas imensas engolindo as compras, as roupas, a coragem. Finjo dores que não são minhas, o amargo do café sempre pontual. Queria ser inteira sem me doer. Faróis inalcançáveis. Escureço por dias. Destranquei as travas internas de segurança. Chega.

sem título

mais uma prateleira
do guarda - roupa se desfez

não suportou o peso
das minhas vontades
todas separadas conforme
a cor
o tamanho
ou nível de desastre

bom era o tempo
em que a dor cabia
em um só bolso da calça.

sem título


depois da chuva
o que fica é este
verso à fórceps


e uma aspereza apropriada
para a boa convivência
entre poetas


riso alto para não perder
o equilíbrio


há ausências na varanda.

21 de jan. de 2014

sem título



 o coração tem espaços oceânicos

descrevo com paciência o drama do dia
enquanto acumulam-se desenhos sob a pele

há uma ordem expressa
para o contentamento permanente

prefiro
morrer de insônia
do que de espera.


Nota para Caderno Terapêutico #12

 Ouço Billy Holiday enquanto espalho livros pela casa. Vontades mutiladas. Não consigo. Não consigo. Não consigo. Mantra. Faróis suspensos. "Don't know why there's no sun up in the sky/ Stormy weather". Mais um suicídio em São Paulo. Nublaram-se as intenções.



 

19 de jan. de 2014

sem título

Arthur, senta aqui
e eu te mostro meu mundo
tão Amélie Poulain


consertei minha máquina
de fazer planos
e a roupa no varal
está seca e limpa
como as nossas intenções


há de se ter tempo
para um clichê sincero
um riso fácil
e a sessão das dez


ainda ontem recitávamos Eliot
enquanto fazíamos as malas
um jazz para aquietar o coração
e já podemos partir


Wonderland ou Meia Noite em Paris
humor britânico para todas as ocasiões


Arthur, senta aqui
e eu te mostro
o meu melhor drama. 

13 de jan. de 2014

sem título



                                      Para Arthur

teus olhos tristes
dois metais difusos
e a parte que me cabe

silêncios de moldura fosca

pétala que se abre tímida
para a aurora nas tuas mãos.





Bilhete para Ana


Hoje tá tão cinza aqui no peito. Ao contrário de ontem, tudo azul. Acho que foi a  bebida ou Rimbaud se debruçando todo líquido. Dizem que as almas se reconhecem num deserto árido. Caio que o diga. Então fez-se um azul todo bonito. Âncora de olhos tristes. Ana, tá complicado viver aqui - um pé em dois mundos. Partiu-se o pão. Mas. Take this sinking boat and point it home, we've still got time.


Um beijo,


Raquel ["deusa" ex -machina]

11 de jan. de 2014

Ana, te conto a minha grande história passional

 Dear Ana,


Júlio pergunta pelas chaves. Eu digo que não. Joana, me dá isso aqui. Não dou. Quero ovos poché, torradas integrais  e suco de melancia para o café da manhã. Júlio se nega a me atender, diz estar cheio de minhas exigências alimentares. E afetivas. Para mim ele nunca  fora o suficiente. Talvez nem a metade do suficiente. Coloco a roupa na máquina e dou a partida naquele objeto branco que treme sem parar. Máquinas de lavar não deveriam se sacudir tanto, parecem querer expelir alguma coisa incômoda.

Também tenho muita coisa para expulsar daqui de dentro. E pesa muito mais do que 5kg de roupa suja. Júlio volta da cozinha com o meu café pronto. Me olha de soslaio, pede desculpas e me dá um beijo insosso. Assim como a minha vontade em continuar dividindo o meu mundo com ele. Pergunta pelas chaves. De novo. Finjo não ouvir, termino o café rapidamente e logo visto calça - jeans, blusa preta e sapatilhas. Prendo os cabelos em um coque - uma caneta segura o emaranhado de fios castanhos - porque nunca sei onde deixei as presilhas - e sigo para o ateliê. Enfim, começo a trabalhar na escultura inacabada do dia anterior. Argila amorfa entre as mãos. Vida amorfa entre as mãos. Já não sei o que estou fazendo ali. 

Pneus cantando na avenida. Júlio que achou as chaves. Vai escapar  para algum lugar com toda sua culpa. Eu sei que vai.

Enfim, a roupa está limpa.


Um beijo, darling [não quero mais falar de coisas tão brutas como esta, sorry].

Joana.

9 de jan. de 2014

Ana, eu te peço




Essa sangria mensal me destrói o corpo. Fico doente de ranger os dentes. Brinco de cortesã: minhas habilidades por um bom prato de poesia pra preencher esse oco. Deus tudo vê na parede da cozinha. Minhas pernas não me obedecem. Sou punida todos os meses porque não desejo procriar. Mãe natureza do cassete. Tenho que ir lá comprar frutinhas pra manter a saúde. E a sanidade, entonces. No ônibus um provável assédio: ajuda com as sacolas e eu te chamo pra sair. Nojo. Nenhum traço de beleza - sim, é só o que importa a partir de agora. Costas largas para que eu possa escalar - devagar e sempre – até aparecer o cavalo branco. Joana me irrita, tenta encontrar sintomas no que escrevo e não aceita o meu hermetismo. Júlio, não. Ele me lê enquanto literatura. Desculpa, Ana. Só tive um dia difícil. Não ando amuada não, é que a existência pesa. Pedras imensas no sapato.

Agora a dor passou. Conversei com o Júlio por um longo tempo e não entendo a resistência da Joana em não perdoá –lo. Mas você não tem nada com isso, não é mesmo? Ah, tem sim! Foi lendo sua poesia que essa história toda começou! E eu de encantos morro por ti, minha sereia.


Um beijo líquido nesse rosto de adeus,

Bia [ que te quer aqui bem perto]




8 de jan. de 2014

Dear Ana,



tenho me debruçado sobre tua palavra por longas noites. Falamos da mesma coisa? Sim. Indicação seca do presente. Tão várias que chegam a gritar. Mas ninguém escuta. De praxe esse canibalismo hostil. Bia tem andado amuada, olhos tristes, sem fôlego para  a vida. É por querer ser inteira que sofre tanto. Só vê parapeitos azuis para travar o  seu combate. Júlio telefona sempre, com aquele torpor na voz pedindo pelo farol mais próximo. Mas tenho evitado as ligações, um não ouvir descompromissado que me pesa os ombros. Por que atender se as palavras em mim já secaram?  Não, Júlio, não quero mais brincar de puta. Te gosto Ana. E aquele mar ali tão perto tão bravo tão nosso. É de se fazer entender esse pequeno drama que criamos. Pura representação. Ao fechar o livro, tua voz se instalou em meus ouvidos: vai, Joana, ser triste na vida. E fui. Cá estou querendo compartilhar voos contigo.


Um beijo de azul - flor nos teus cabelos,

Joana [que te quer bem].

P.s: Vamos tomar chá das cinco  e eu te conto a minha grande história passional. 

4 de jan. de 2014

Nota para Caderno Terapêutico #11

"Nada a fazer com este lindo vazio a não ser poli-lo."

[Sylvia Plath]


Nada, Sylvia. Não há o que fazer com este oco aqui no peito. Não sei verbalizar o que se passa no fundo do oceano. Na verdade tenho medo de dar forma a esta coisa estranha que habita cada espaço da casa. Troco a mobília, as plantas, a dor de lugar. É como esperar por Godot. Em vão. O leitor já deve estar com os ouvidos cheios de tanta lamúria. Mas o poeta é isso, um constante ensaio para a morte [ainda que metafórica]. Sinto muito.

2 de jan. de 2014

sem título



o que poderia ter sido
é este vão de espelhos
na garganta

cartas para reparar os desvios

que eu ainda possa ser
ventania em tuas janelas.

31 de dez. de 2013

Nota para Caderno Terapêutico #10

Metas ficcionais para o ano que não vem:

- Aceitar a morte de Abelardo.
- Reconsiderar as investidas poéticas de Bernardo, o dramático.
- Guardar em um fundo falso toda a dor vertida na escrita.
- Pregar [como um bom pastor] que a poesia pode salvar algumas almas. 
- Parar com o hábito [nada saudável] de atravessar a rua de olhos fechados.
- Criar um detector de tempestades e naufrágios existenciais.
- Não transbordar em público.
- Aumentar o meu círculo de amigos imaginários [o último morreu esmagado por uma entrelinha].
- Sugestão do leitor.
- Sugestão do leitor.
- Sugestão do leitor.


28 de dez. de 2013

Nota para Caderno Terapêutico #9

Sofro, logo escrevo. Por onde anda o conflito nesses últimos dias? Cadê aquele aperto no peito que arrebenta com tudo? Fim de ano e a calmaria se instala por aqui. Já dizia Woolf que a vida é um conflito permanente [ou quase isso]. Então aqui estou esperando pela próxima tempestade, em nome da criação artística. Esse estado de letargia não me agrada. Prefiro a fúria, mar revolto, sangue quente. Nem o título para um poema eu consigo. Começam a surgir espaços vazios em todos os cantos. Não há mobília suficiente. É preciso inventar novos dramas.

25 de dez. de 2013

Nota para Caderno Terapêutico #8

Então é Natal. E eu nada fiz. Absolutamente nada. Coloquei em prática o "plano Bartleby". Viva o  subsolo! Dostoiévski se orgulharia. Eu, tão cordial e sincera, nada fiz neste longo ano de 2013. Nada que impressionasse a nação brasileira ou deixasse um largo sorriso de contentamento no rosto de minha família. Talvez eu seja uma poeta um tanto desequilibrada. Janelas para a minha inconstância! Anoto em meu diário: noite de Natal extremamente esquisita para os padrões convencionais [não, eu não tenho um diário] . Recebo uma mensagem de boas festas, mas é engano. A essa hora meus [raros] amigos devem estar abraçados a Dionísio. Não os condeno. Já dizia Vinicius, "o uísque [ou a cerveja, no meu caso] é o cachorro engarrafado", o melhor amigo do homem. Então que seja [mas minha cachaça continua sendo a poesia]. 

Devo ter despencado na lista de "melhores do ano". A cotação está em baixa. Não crer em Deus já me faz uma ovelha das mais negras. Creio na literatura, amém. Vou para o inferno, segundo alguns. Para outros, vagarei anos a fio pelos umbrais da terra. Que seja. O Natal  para mim nada representa [sim, já representou  muito em uma infância longínqua]. Mas não devo ser apedrejada por isso.

No quarto ao lado, minha mãe dorme profundamente [consciente de minhas ressalvas religiosas]. Difícil lhe explicar que o sentido da vida é não ter sentido. Mas não a condeno. Um dia contarei ao Papai Noel o que fiz de tão errado para não crer em suas boas intenções.



21 de dez. de 2013

sem título




a poesia que rege
os meses de outono
está limpa e sobreposta
no armário

e há [ainda] quem não entenda de vazios.