Mostrando postagens com marcador Cartas para Ana C. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Cartas para Ana C. Mostrar todas as postagens

13 de jan. de 2014

Bilhete para Ana


Hoje tá tão cinza aqui no peito. Ao contrário de ontem, tudo azul. Acho que foi a  bebida ou Rimbaud se debruçando todo líquido. Dizem que as almas se reconhecem num deserto árido. Caio que o diga. Então fez-se um azul todo bonito. Âncora de olhos tristes. Ana, tá complicado viver aqui - um pé em dois mundos. Partiu-se o pão. Mas. Take this sinking boat and point it home, we've still got time.


Um beijo,


Raquel ["deusa" ex -machina]

11 de jan. de 2014

Ana, te conto a minha grande história passional

 Dear Ana,


Júlio pergunta pelas chaves. Eu digo que não. Joana, me dá isso aqui. Não dou. Quero ovos poché, torradas integrais  e suco de melancia para o café da manhã. Júlio se nega a me atender, diz estar cheio de minhas exigências alimentares. E afetivas. Para mim ele nunca  fora o suficiente. Talvez nem a metade do suficiente. Coloco a roupa na máquina e dou a partida naquele objeto branco que treme sem parar. Máquinas de lavar não deveriam se sacudir tanto, parecem querer expelir alguma coisa incômoda.

Também tenho muita coisa para expulsar daqui de dentro. E pesa muito mais do que 5kg de roupa suja. Júlio volta da cozinha com o meu café pronto. Me olha de soslaio, pede desculpas e me dá um beijo insosso. Assim como a minha vontade em continuar dividindo o meu mundo com ele. Pergunta pelas chaves. De novo. Finjo não ouvir, termino o café rapidamente e logo visto calça - jeans, blusa preta e sapatilhas. Prendo os cabelos em um coque - uma caneta segura o emaranhado de fios castanhos - porque nunca sei onde deixei as presilhas - e sigo para o ateliê. Enfim, começo a trabalhar na escultura inacabada do dia anterior. Argila amorfa entre as mãos. Vida amorfa entre as mãos. Já não sei o que estou fazendo ali. 

Pneus cantando na avenida. Júlio que achou as chaves. Vai escapar  para algum lugar com toda sua culpa. Eu sei que vai.

Enfim, a roupa está limpa.


Um beijo, darling [não quero mais falar de coisas tão brutas como esta, sorry].

Joana.

9 de jan. de 2014

Ana, eu te peço




Essa sangria mensal me destrói o corpo. Fico doente de ranger os dentes. Brinco de cortesã: minhas habilidades por um bom prato de poesia pra preencher esse oco. Deus tudo vê na parede da cozinha. Minhas pernas não me obedecem. Sou punida todos os meses porque não desejo procriar. Mãe natureza do cassete. Tenho que ir lá comprar frutinhas pra manter a saúde. E a sanidade, entonces. No ônibus um provável assédio: ajuda com as sacolas e eu te chamo pra sair. Nojo. Nenhum traço de beleza - sim, é só o que importa a partir de agora. Costas largas para que eu possa escalar - devagar e sempre – até aparecer o cavalo branco. Joana me irrita, tenta encontrar sintomas no que escrevo e não aceita o meu hermetismo. Júlio, não. Ele me lê enquanto literatura. Desculpa, Ana. Só tive um dia difícil. Não ando amuada não, é que a existência pesa. Pedras imensas no sapato.

Agora a dor passou. Conversei com o Júlio por um longo tempo e não entendo a resistência da Joana em não perdoá –lo. Mas você não tem nada com isso, não é mesmo? Ah, tem sim! Foi lendo sua poesia que essa história toda começou! E eu de encantos morro por ti, minha sereia.


Um beijo líquido nesse rosto de adeus,

Bia [ que te quer aqui bem perto]




8 de jan. de 2014

Dear Ana,



tenho me debruçado sobre tua palavra por longas noites. Falamos da mesma coisa? Sim. Indicação seca do presente. Tão várias que chegam a gritar. Mas ninguém escuta. De praxe esse canibalismo hostil. Bia tem andado amuada, olhos tristes, sem fôlego para  a vida. É por querer ser inteira que sofre tanto. Só vê parapeitos azuis para travar o  seu combate. Júlio telefona sempre, com aquele torpor na voz pedindo pelo farol mais próximo. Mas tenho evitado as ligações, um não ouvir descompromissado que me pesa os ombros. Por que atender se as palavras em mim já secaram?  Não, Júlio, não quero mais brincar de puta. Te gosto Ana. E aquele mar ali tão perto tão bravo tão nosso. É de se fazer entender esse pequeno drama que criamos. Pura representação. Ao fechar o livro, tua voz se instalou em meus ouvidos: vai, Joana, ser triste na vida. E fui. Cá estou querendo compartilhar voos contigo.


Um beijo de azul - flor nos teus cabelos,

Joana [que te quer bem].

P.s: Vamos tomar chá das cinco  e eu te conto a minha grande história passional.