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2 de out. de 2013
Recado para Abelardo
Abelardo, por que me assombras? Já tiveste meu corpo e agora queres a minha alma? Queres minha poesia, meu luto, meu canto? Já levei flores, cartas, Chicos, medalhas e dancei sobre teu túmulo. Por que não morres de mim? Te dei meus olhos pra tomares conta agora conta como hei de partir? Abelardo, escuta: meu peito dorme.
13 de jul. de 2013
Visita para Abelardo
Foi num dia azul que os teus olhos se fecharam. Apesar das margaridas, chorei tua ausência. Abelardo, por que não me olhas? Aqui estou, sentada sobre tua lápide à espera de algo teu, talvez um beijo. A culpa que meus ombros drummondianos carregam é imensa. Eu poderia correr, eu poderia gritar, eu poderia evitar, eu poderia. Mas não. Deixei o amor te consumir até os ossos. Eu avisei, Abelardo, da tempestade. Há poetas, bêbados, prostitutas chorando tua morte. Mal sabem o mal que me fizeste. Foi por ti, Abelardo, que passei a acreditar nos amores líquidos. Hoje, trouxe-te um girassol, tão amarelo quanto meu sorriso. Há despedida em meus olhos, mas não quero.
29 de jun. de 2013
A morte de Abelardo
Abelardo enforcou-se tamanho desgosto com o amor. Tentei dissuadi-lo - Abelardo, não se mate, oh não se mate, o amor é isso que você está vendo, inútil você resistir ou mesmo suicidar-se- mas não. Levou a corda ao pescoço [com movimentos ritualísticos)e pela última vez lançou-me o olhar, o beijo, a carne: eu avisei, Abelardo, da tempestade [...] lembra-te? Inútil. Na necrópsia, a [Causa mortis]: amor descompensado seguido de severa crise de egoísmo. Quero chorar pela morte de Abelardo, mas não. Estou dançando sobre seu túmulo enquanto lanço margaridas para o alto [peço perdão pela minha felicidade]. E em seu epitáfio lê-se - amou apenas a própria imagem.
25 de jun. de 2013
Nota abelardiana em dia de chuva
Eu avisei, Abelardo, que a tempestade era aqui dentro. Cantei Chico pra você e nada. You can't hear me. Malas prontas, sim. E um beijo que te distraia dessa monotonia.
12 de jun. de 2013
Notas abelardianas ou o recomeço
E se fosse um drama, desses que o vinil arranha até a mágoa? Fatal, és tu. Com a sinopse perfeita do teu corpo, me entrego (e não). Já chega, Abelardo. Quero um fim, um nó, um caos e só. Ei de ancorar-me em qualquer nau que não a tua, enfim. Segura a minha mão. E vem.
Notas abelardianas ou o fim
Esqueci as chaves. Impaciente sou. Me olhas assim, tão desajustado e eu aquiquerendomuito o fundo do oceano. Novas mentiras me interessam. E tem o jazz, aquele na vitrola do meu coração. Seco. Vai, Abelardo, ser livre na vida, que já sou. Não tua, mas da poesia. Inevitável.
30 de abr. de 2013
Bilhetes para Abelardo
24 de abr. de 2013
Cenas de Abelardo
Abelardo, queria dizer-te (ouve apenas): plena estou quando deságuo na tua epiderme. Agora, posso até arquitetar um verso, cantarolar um Chico, um jazz para o coração. Tua respiração - pesada mágoa- zomba da minha falta de jeito para entender os amores líquidos e, sigo no movimento da tua fala desordenada. Ainda é cedo e tolos estamos a esperar o próximo capítulo - inútil crença. Teu olhar ruivo me condena e eu, híbrida, deságuo novamente em tua vida. A paz que eu não quero, vem.
30 de mar. de 2013
Abelardo gostara de meu vestido vermelho. Coração pulsando e as mãos inquietas, o vermelho virando a brancura da pele que vibrava. Abelardo foi feliz.
Abelardo gosta da minha pele alva, do meu silêncio , do meu fingimento passional, do meu não sentir e de não estar em lugar algum quando, de fato, estou ali , pronta para desabrochar, mas não os compreende, tampouco, dimensiona minha total falta de apreço pelos amores unilaterais. . Abelardo é pouco para o meu muito, mãos deslizando no corpo em fuga, mãos de um vazio fatal, mãos únicas. Gosto de seu hálito fresco feito manhã outonal, seu cabelo indefinido, sua língua quente, sua palavra profanando meu puro desejo de continuar. Abelardo diz que sou difícil, difícil é entender o lado azul desse amor tão líquido. Abelardo matou-me a razão, mas não a vontade ficcional.
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